fevereiro 10, 2010 alexdasilveira Sem comentários
Nos últimos meses o Bibliotecno vem abrindo cada vez mais espaço para os temas ligados aos e-books de forma que qualquer desavisado possa acreditar que este é o único tema do site, concluindo-se que este novo suporte é uma temática que deve ser pensada pelas bibliotecas. Nos tópicos que dedicamos aos e-books a maioria abordava o aspecto tecnológico, ou seja, o e-reader, contudo, quais os impactos que os e-books podem causar em uma biblioteca.
Muito do que aparece sobre este tema é especulação! Uns dizem ou dão a entender que o livro impresso irá acabar (este site já fez isto), outros dizem que o livro impresso nunca irá acabar (este site também já fez isto) e existem até aqueles que acreditam que o e-book não surtirá efeito algum em relação aos livros impressos (o que já vem ocorrendo). Mas e quanto as bibliotecas? Esta semana foi amplamente divulgado por vários websites que a Biblioteca Britânica irá oferecer milhares de livros em e-book e antes de continuarmos esta reflexão leia um das matérias publicadas sobre a distribuição dos e-books.
Matéria disponibilizada em: http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI4256360-EI4802,00-Biblioteca+britanica+oferecera+milhares+de+livros+em+ebook.html
Começaremos analisando o impacto do último parágrafo da matéria: “Existem planos de continuar com a parceria para disponibilizar também títulos do século XX. A previsão da Biblioteca Britânica é que até 2020 mais de 50 milhões de livros estejam disponíveis em formato digital.“. Não estamos falando sobre os programas de digitalização que estamos acostumados a ver, que miram apenas em obras antigas (por mais que o século XX já tenha se tornado um passado até distante) e sim sobre um projeto de digitalizar obras não raras. Segundo a matéria, fala-se em digitalizar obras do século XX, o que poderia incluir obras do fim do século que em 2020 terão cerca de (“apenas”) 30 anos. Pode ser que se opte pelas obras mais antigas, porém, estamos falando de uma biblioteca que vem se envolvendo com a modernidade, sendo uma das poucas a investirem no arquivamento da web, por exemplo.
Outra questão que abre espaço para obras mais recentes é o que a matéria coloca em seu penúltimo parágrafo: “os e-books que não forem oferecidos gratuitamente poderão ser adquiridos por cerca de 15 euros (aproximadamente R$ 38) na loja do Kindle da Amazon.” Com esta posição pode-se “solucionar” questões de direito autoral das obras mais recentes, podendo-se gerar lucro ao autor. Mas este modelo chega a assustar até mesmo os mais “modernos” em relação a tecnologia nas bibliotecas por estar sendo abordada a possibilidade de venda de conteúdo. A matéria deixa vago se haveria ou não participação da biblioteca na venda dos livros não gratuitos, mas se houver estamos abrindo espaço para um novo modelo de bibliotecas destinadas ao público geral que não só dá acesso a informação, mas também cobra (de forma direta) pela informação com venda em site de terceiros.
Um aspecto ao se trabalhar no novo suporte é a importância que a Biblioteca continua a dar a linguagem não verbal, preservando-se topologia e características das publicações. É importante observar esta questão, pois no início da digitalização de obras e da distribuição dos e-books o que se poderia ver era apenas a importância dada a linguagem verbal. A linguagem não verbal só ganhava destaque nas obras raras, que é o caso que estamos presenciando, mas aqui há a esperança desta característica ganhar sua importância nas obras mais contemporâneas quando ocorre a digitalização de livros do século XX.
Mas o maior impacto que a distribuição de e-books, em grande escala, por uma biblioteca pode causar é a disseminação do formato digital, o que poderá abolir a idéia de que os e-books não terão seu espaço entre leitores e abre espaço para a discussão em relação ao futuro do formato impresso. Poderia exibir aqui muitos motivos para dizer que o impresso nunca acabará e um deles é a biblioteca, principalmente as nacionais como a Biblioteca Britânica, como um tipo de “santuário” das obras impressas. Mas o que ocorre quando estes “santuários” começam a se render também ao e-book?
É certo entre a maioria dos bibliotecários que a biblioteca é um espaço de estudo, pesquisa, cultura e lazer com foco na informação e não no suporte. Mas o que vemos na prática é sempre um privilégio ao livro impresso onde coleções ganham nomes, salas especiais e incentivos, enquanto outros formatos (quase sempre digitais) como audio, vídeo, jogos digitais ficam quase sempre relegados a um espaço esquecido, a um segundo plano, excetuando-se casos onde a biblioteca é específica para este tipo de conteúdo. O que ocorre quando o livro começa a se tornar digital? Uma abertura para a cultura digital com inclusão dos usuários? Uma abertura a novas fontes de informação como a criação de coleções de websites arquivados? E onde fica o impresso nesta história? Muda, enfim e na prática, o conceito de biblioteca? Por enquanto o que podemos é especular, mas é importante observar o que acontece com o mercado da informação já que atualmente as mudanças vem ocorrendo cada vez de forma mais rápida.
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