janeiro 29, 2010 alexdasilveira Sem comentários
Ao ingressar no curso de biblioteconomia, em 1999, passei a escutar o que considero um mantra que continua até hoje no imaginário da grande maioria dos bibliotecários: NA WEB EXISTE MUITO LIXO. Esta afirmação surgiu principalmente pelo fato dos sistemas de busca da web não apresentarem a eficiência que os pesquisadores esperavam, em partes por ser esperado deles uma organização parecida com a de uma biblioteca e também por falta de conhecimento em busca avançada nos mesmos buscadores.
Acontece que mesmo com os aprimoramentos das buscas avançadas os “lixos da pesquisa” permaneceram, principalmente pelo crescimento do conteúdo da web, o que fez com que a idéia de que existe muito lixo na web crescesse. Mas a questão é: O que é lixo na web e porque e para quem aquele conteúdo não interessa.
Se no passado as páginas pessoais eram atacadas como um problema, hoje este status recai sobre as ferramentas de redes sociais, pois, quem nunca viu árduos questionamentos sobre o uso do twitter, por exemplo, considerando este como uma inutilidade, uma ferramenta onde as pessoas contam apenas fatos de suas vidas como forma de exibicionismo. Mas estranhamente vemos grandes empresas tendo seus perfis na ferramenta, e até mesmo bibliotecas.
Outro aspecto curioso recai sobre os blogs. No inicio tinham o mesmo tratamento das páginas pessoais, aliás o blog não deixa de ser uma página pessoal em forma de diário, e hoje existem muitos mantidos por acadêmicos apresentando conteúdo técnico, são adotados em larga escala por jornais e muitos blogs focados em determinados assuntos são mais eficientes que sites consagrados volatados para o mesmo tema.
A questão é para quem determinado conteúdo é considerado um lixo. Imaginemos a rede social Orkut, popular no brasil, muito utilizada por jovens com a finalidade de comunicação, de exibicionismo e que em muitos casos não faz o uso correto da lingua portuguesa. Este se tornou um exemplo clássico de página rotulada como lixo quando se aborda a questão do Arquivamento da web, não sendo difícil escutar opiniões como: “mas o orkut também?”. Agora imaginemos um estudo social sobre os adolescentes brasileiros de hoje, daqui há uns 15 anos, que vise analisar como estes jovens se comunicavam, como era a linguagem por eles adotada e sobre o que conversavam sem a existência do conteúdo da ferramenta como matéria bruta para a pesquisa. Neste caso ficaríamos presos a trabalhos realizados sobre o tema que as vezes expressa a realidade do autor.
A grande quantidade de empresas que fazem uso do twitter como ferramenta de marketing também é um exemplo de como estudar as ações de publicidade, junto ao cliente adotada, pelo concorrente, realizando-se assim uma análise do ambiente externo para o planejamento estratégico de uma empresa. No caso dos blogs tem-se visto, nos últimos meses, muitos processos jurídicos sobre opiniões emitidas por blogueiros e a não preservação dos blogs, neste aspecto, seria eliminar provas judiciais, assim como o não arquivamento de páginas comerciais nas questões de suas relações com o consumidor.
Ainda sobre os blogs temos casos de diários pessoais que relatam visões de fatos históricos vividos por determinadas pessoas, como o caso de 11 de setembro nos EUA. Voltando as redes sociais ficaria difícil entender alguns fatos políticos e reações sociais sem a analise do conteúdo publicado nestas ferramentas. E vários outros casos com as mais diversas utilidade ainda poderiam ser usados como exemplo aqui.
Limitar a preservação da web a determinados sites/conteúdos sem grandes estudos sobre como se fazer isto poderia tornar a memória preservada uma visão elitista da sociedade, e gerar uma censura de parte de nossa história, de nosso comportamento. Não diria que hoje é possível preservar tudo que é publicado, mas deve-se eliminar visões pessoais sobre o que é considerado “lixo na web” antes de realizar qualquer seleção.
Esta semana vimos a afirmação de que a Web 2.0 é uma favela, e realmente é, mas não devemos confundir esta afirmação em relação ao que é publicado, mas em relação a organização da informação. É necessário organizar o conteúdo da web, tornando ela semântica, permitindo que cada um chegue a informação desejada e não eliminar conteúdos, favorecendo um grupo de pessoais, uma unica visão da sociedade.
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